O Mamam no Pátio por Mozart Santos: relatos de um artista-gestor http://www.doispontos.art.br/tema.php?cod=841
Dois pontos: - Você ficou de quando a quando no Museu?
Mozart: - Eu entrei no MAMAM em 2001, como estagiário em arte/educação. Trabalhei com Moacir dos Anjos, fiquei lá até 2003 quando fui morar em Natal/RN, no mesmo mês em que o grupo Quarta Parede, ao qual eu fazia parte, fez um importante trabalho na cidade, o MAMÃE, Museu de arte Moderna é a Mãe
http://www.vimeo.com/4457269. Em dezembro de 2006 estava de volta a Recife. Foi em 2007 que fui convidado a fazer seleção para o cargo de Gerente do MAMAM no Pátio com outros educadores. Esse foi o momento em que Cristiana Tejo entrava no museu com a proposta de implantar o projeto de Artistas Educadores. Demos daí início a elaboração do projeto “é brincando que se aprende” que unia oficinas de fabricação de brinquedos com teorias de elementos da linguagem visual e aplicações com arte contemporânea em subúrbios da cidade. Em setembro e outubro de 2008 fui apresentar esse projeto na Holanda pelo Made in Mirrors, lá desenvolvemos oficinas de arte postal com crianças de escolas holandesas trocando cartas com crianças de escolas públicas do Pilar, em Recife. Em Junho de 2009 recebemos menção honrosa no Prêmio Darcy Ribeiro - 2009, que tem por objetivo incentivar e premiar as práticas relacionadas a ação educativa em museus.
Sai do Museu em 1º de julho de 2009, com muito aprendizado.
Dois pontos: - Antes de entrar já tinha experiência na área educativa/gerencial?
Mozart: - Trabalhei dois anos com Tarciana Portella em sua produtora homônima, era uma equipe bem enxuta de três profissionais e cada um era responsável por algumas áreas, éramos três tomadores de decisões, onde cada escolha afetaria o trabalho geral e a área do colega, logo, nossas gerências, apesar de não usarmos essa nomenclatura, eram acima de tudo de trabalho em equipe. Isso foi de 2001 a 2003, período em que eu paralelamente trabalhava no MAMAM. Quando cheguei ao Rio Grande do Norte trabalhei numa escola construtivista, onde mais uma vez desenvolvemos uma linha de trabalho conjunta entre todas as disciplinas em vários projetos durante o ano, eu era o responsável pela equipe de artes visuais. Mas o trabalho era integrado com música, dança, matemática, educação física, bom, todas as disciplinas da escola. Quando fui selecionado a entrar no MAMAM no Pátio foi quando realmente tive que lidar com questões de infra-estrutura, além de assistir aos artistas no que dizia respeito às questões conceituais em suas residências, fazer o trabalho educativo com os estagiários e lidar com a existência estrutural do MAMAM no Pátio e as questões operacionais do próprio Espaço Cultural Pátio de São Pedro. Mas tudo isso realizado com a equipe do MAMAM, quem me passavam todo know how e assim facilitavam essas tomadas de decisões.
Toda experiência que vivi, me ajuda de alguma forma na hora que preciso, mesmo que eu não a selecione ela vem espontaneamente.
Dois pontos: - Pretende continuar atrelado a projetos institucionais ou retomará exclusividade à carreira artística?
Mozart: – Acredito que a pessoa não escolhe ser artista, ela nasce artista e daí vai se aprimorando, com técnicas, o que vive. Têm coisas que fazem parte da minha personalidade, sou empreendedor, procuro exercitar minha pró-atividade e sou artista. Vivo tudo isso de uma vez.
Sempre precisa-se de soluções inteligentes e criativas. Essa é a base do conceito de artista/educador. O mercado de arte em Recife proporciona ao artista ser “fríla” (free lancer) se desejar. Ser produtor ou se juntar a um produtor e desenvolver suas e outras idéias através de planos de incentivo à cultura, governamentais ou de bancos privados. Mesmo quando estava trabalhando no MAMAM no Pátio coloquei projetos na lei de incentivo a cultura do estado, Funcultura, foi o “Pare, olhe, escute” http://moscadormindo.blogspot.com/2009/03/blog-post.html. Assim ou trabalhando para alguma instituição, sempre estarei exercitando minha criatividade. Sendo Mozart Santos.
Dois pontos: - Como foi pra você juntar as rotinas de artista e educador/gerente? Como um contribuiu pro outro?
Mozart: – o MAMAM no Pátio tem sua demanda e tínhamos que criar soluções dinâmicas. A prática da gerência e produção no MAMAM no Pátio faz exercitar de forma bem intensa a flexibilidade e agilidade pra resolver situações com prazos fechados, isso vai desde pré-produção, produção e pós-produção. Pesquisa educativa, montagem, criação do programa educacional pensando no público do Pátio de São Pedro, abertura da exposição, e o dia-a-dia com os estagiários de cursos diversos, que é para haver encontros de idéias em complexidade, olhares transdisciplinares sobre o mesmo tema. Trabalhando no MAMAM no Pátio pode-se participar de toda a cadeia produtiva de um museu e isso dá um amadurecimento muito grande a quem o vive.
Dois pontos: - Como analisa essa tendência de artistas-executivos em Recife?
Mozart: – “quando eu nasci um anjo só baixou falou que eu seria um executivo e desde então eu vivo com meu banjo executando os rocks do meu livro pisando em falso com meus panos quentes” [1]. O que faz o profissional melhorar tecnicamente é a prática e a pesquisa. Não pare de trabalhar porque não tem uma lente que só se usa na Nasa. Lápis e papel se encontram em qualquer lugar. Simulacros meu caro amigo, simulacros. Com isso não quero dizer que pare sua “pesquisa espacial”, Não só crie, execute. Quanto mais eu treino, mais sorte eu tenho. Homem morre menino nesse aspecto do saber humano. Sempre há o que descobrir.
Não há mais tempo para boemia e ópio. Estamos no tempo do home office, o artista tem que ser empreendedor e promotor de seu próprio trabalho seja para fazer as exposições, para vender suas obras ou para desenvolver projetos de aplicação pública. Come-se todo dia, contas, internet, cervejinha com os amigos depois do expediente, namorada, material de pesquisa, aluguel, celular, pão, ovo e café, então não temos tempo para devaneios de inspiração divina ou sequer aguardar uma musa nos sensibilizar. Elas também estão ocupadas, a população mundial cresceu demais. As Silvias, as Lívias e outras musas são capazes de bulir com as nossas ignorâncias. Escute-as se for homem, mas não fiquem no raso, estimado amigo artista, rache o quengo de estudar.
Em Recife percebe-se esse amadurecimento. Via-se muito os mais inexperientes reclamar por não expor aqui ou ali. A cidade é enorme e viva. Expanda seu campo de ação! A verdade está lá fora e não é a galeria que faz o artista e sim o contrário. O Spa das artes veio mostrar isso nessas paragens. Não se mostra arte só em museus e galerias. Os coordenadores desses locais, públicos ou privados também têm seus projetos e conceito curatoriais a defender e nem sempre o trabalho de um artista é o mais adequado para aquele espaço, naquele momento. E ainda fica um lembrete sábio, vá para além dos sobrados e dos mucambos. Descubra-se esse hipersujeitoplanetário. Googlei-se. Coloque uma parabólica no mangue do seu quintal. Outro bom conselho que fica aqui de graça é pra o artista se divulgar. Se até as grandes empresas fazem isso por que você não o faria? Mas se mesmo assim essas dores de arte entupida não passarem, nada melhor do que leite de magnésia.
[1] Zeca Baleiro – Trecho da música Você só pensa em grana




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