segunda-feira, 15 de junho de 2009

Pátio de olhos verdes


Pátio de olhos verdes ou carta aberta aos usuários do Recife
Por Mozart Santos



Foi desafiador gerir e compor as ações educativas do Mamam no Pátio, tendo em vista a “pureza visual” dos nossos visitantes/passantes à codificação conceitual nos experimentalismos dos projetos artísticos.
Cada dia mais se torna impossível dissociar a arte da história social humana. As obras de arte estão tão fisicamente mimetizadas com a nossa vida cotidiana que fica fácil de duvidar se aquilo é mesmo uma obra de arte. E se aquilo é arte então o que eu vivo em casa também é? Deve perguntar o expectador mais atento. O Mamam no Pátio vem refletindo esses diversos confrontos que unem a arte contemporânea e os contextos específicos de uma cidade formada pela diferença. Fomos mesmo ao que nos interessava, nos dedicamos inteiramente a sermos ouvintes às reações desse multipúblico às exposições de arte. Há vida inteligente lá fora. Interessava-nos o repertório dessas pessoas. A obra de arte reside também na vivência e na experiência, aproximando-se do ser e da verdade, ao contrário do que definia Platão ao afirmar a obra de arte como ilusão ou representação.
Isso permite um viés perigoso, se o artista não é mais aquele que possui o dom de criar a partir de uma inspiração, fruto de uma sintonia profunda com o cosmos, vem a pergunta: facilmente qualquer um pode fazer arte? Isso requer uma atenção redobrada dos diretores e curadores de instituições, e parafraseando Baudelaire, tenho muito cuidado para que progressos mal aplicados não contribuam para o empobrecimento do gênio artístico pernambucano. Tudo que só é válido porque o homem acrescenta a alma, que desgraça para nós!
O Mamam no Pátio e seu conjunto ideográfico permitiu ao Recife uma significativa experiência unindo Tempo e Espaço com, muitas vezes, o primeiro contato de muitos recifenses com a arte e suas possibilidades. As residências artísticas do Mamam no Pátio tentaram proporcionar um amadurecimento nos olhos de nossos visitantes para perceber que a dinâmica da vida corre entramelada a da arte, essas descobertas aos poucos vão ganhando destaque, reconstruindo nosso cotidiano, fazendo ver que arte e vida não se separam. Vivemos isso ao promover o encontro de nosso conhecimento ao conhecimento de comunidades do subúrbio do Recife proporcionando aprendizados de mão dupla. Essas experiências em complexidade, sendo levadas aos bairros da cidade, unidas a ingredientes contidos no inconsciente dos jovens que trabalharam conosco, reagiu de forma catalisadora para o desenvolvimento do pensamento mais maduro a respeito da arte e possibilidades de apreensão de técnicas de fabricação de brinquedos.
A prática do plano conceitual educativo do Mamam foi realizada em Sittard, na Holanda, com a aplicação de oficinas de arte em escola do subúrbio holandês no programa Made in Mirrors. Com esse intercâmbio o Mamam/Mamam no Pátio pôde aprender muito e certamente viver esse aprendizado em sua prática cotidiana.
E o que dizer do contato do museu com a cidade? O projeto de residências artísticas do Mamam no Pátio nasceu apenas em 2006 provocando o confronto com as ruas, os subúrbios, revendo a cada momento a forma de estar no mundo, na arte e nossos próprios conceitos e discursos. O museu pôde aprender muito com cada visitante, cada educador, cada confronto e diálogo. Afinal era um projeto inovador trazer um artista sem uma obra planejada e essa obra surgir nessa prática desses brasileiros e estrangeiros com a cidade. Desafiador e estimulante. Viva a cidade, é a palavra de ordem!
Este museu está no Pátio de São Pedro, coração do Recife protagonista de importantes comemorações do calendário de festividades populares, convidando os usuários da cidade em sua completa diversidade a conhecer a intensidade da arte brasileira que aparece aqui numa produção diversa de riquezas à disposição da transformação e reinvenção na fruição desse público e da própria arte.

Enfim encerra-se uma etapa do mamam no pátio. Encerra-se a minha etapa como gestor do Mamam no Pátio, para o início de outra. Para se deixar de ter os olhos verdes, agora amadurecidos para sua própria existência, acessando um novo real invisível e (modificando) ampliando assim, seu campo perceptivo e se vendo de dentro pra fora.

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