terça-feira, 16 de junho de 2009

As mulheres de Mozart Santos


As mulheres de Mozart Santos
por Mário Hélio

Há um estranho pacto entre o o tempo e a fotografia. Como se entretecessem, juntos, os fios invisíveis que definem o visível, para entreter, talvez, ou redefinir um modo de perceber o espaço. Submetidos ao tempo, os corpos cumprem a sina da metamorfose permanente, até o desaparecimento - a fotografia isola um desses momentos da crisálida. Cristaliza um gesto, uma expressão, um movimento. Ou mesmo o detalhe estático de algo que, para o olho do fotógrafo, tem uma espécie de êxtase. Catar e captar imagens dizem o mesmo: não aprisionar almas, como na conhecida superstição, mas divertir-se em expô-las no que extrapolam, no que transbordam de sua metamorfose heraclitiana. Boas fotografias dão sempre o que pensar? "Pensar é estar doente dos olhos", disse um poeta que quis ver claro como um fotógrafo. Quis ver como um danado.

O fotógrafo Mozart Santos escolheu corpos e rostos fecundos para uma extensa exposição. O seu ensaio é uma espécie de cântico das ocupações, pois parece mostrar as mulheres em ação produtiva. Seja na alegria folclórica de danças como o frevo, maracatu e caboclinho - quase a metade das imagens - seja o trabalho de vendedouras, de benzedeiras, de mendigas.

No seu estudo do tempo e das pessoas, o fotógrafo escolheu mulheres de várias idades que respondem à esfíge: há crianças , jovens, adultas e velhas. Estas as mais intensas. Mas preferiu fixá-las no seu instante de expressividade. Daí ser a expressão do rosto - ou, menos, de um giro definidor de uma arte do corpo - o seu front. Dir-se-ia que há também uma certa intenção sociológica ou antropológica na seleção das imagens: mulheres brancas, indias e negras.

Não há olhar impessoal ou inocente naquele que fotografa. Apesar do nome objetiva, é o sujeito o que conta no mundo das imagens. A escolha é do olho do fetógrafo, não da lente da câmera. Um admirar-se, ou mais, um mirar e atingir o alvo, até reproduzi-lo ou metemorfoseá-lo numa emulsão que, à falta de melhor termo, motiva e desncadeia novos hálitos de emoção. A emoção do real visível pelo olhar e passível de reprodução pela máquina.

Um comentário:

  1. Ola, fiquei curioso viu. quero ver "as tais fotografias, em que nao aparces inteira... e sim coberta de nuvens"

    Abraçao.

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